O perfil da enfermagem brasileira e a sua relação com a população

Recentemente li um relato/desabafo a respeito da situação da enfermagem brasileira e a violência à qual somos submetidos diária e silenciosamente. Após a leitura, me entristeci. Senti, então, a necessidade de compartilhar algumas informações pontos de vista com vocês, mesmo já tendo escrito sobre o panorama da enfermagem no Brasil em um post anterior.

Somos a maior classe de trabalhadores no país, com mais de 1,8 milhão de profissionais. Apenas no estado de São Paulo, somos quase 460 mil trabalhadores, o que equivale a 25% da frente de trabalho da enfermagem no país (1). Predominantemente jovem (61,7% dos profissionais tem até 40 anos) e hegemonicamente feminina (85%), a equipe de enfermagem brasileira é considerada majoritariamente não-branca (quando somados pretos e pardos, com percentuais de 11,5% e 41,5%, respectivamente). Quanto à formação profissional, apenas 23% do corpo de profissionais da enfermagem são de enfermeiros, enquanto a soma da auxiliares e técnicos de enfermagem é de 77%.

Considerando a população de auxiliares, técnicos e enfermeiros existentes hoje no Brasil e tendo como base a idade desta população, é possível construir, a partir do construto da sociologia das profissões, um quadro caracterizando as várias “fases” da vida profissional desta categoria, levando-se em conta a idade e a contabilidade dos anos de formação até a sua entrada no Mercado de Trabalho, seja ele de nível técnico (18 anos) e profissional (22 anos).

A 1ª Fase, denominada de “Início da vida profissional”, refere-se aqueles com até 25 anos de idade, seja ele, auxiliar, técnico ou enfermeiro (7,6%). Nesta etapa, estão os recém- formados, recém egressos das escolas técnicas ou das escolas de enfermagem, propriamente ditas. Estes jovens estão ainda sem definição clara da área de atuação e como se dará sua inserção no mercado de trabalho. É a fase do sonho profissional, da ilusão de uma vida profissional promissora, mas é também a fase das indecisões, da busca por uma inserção no mundo do real, no mundo do trabalho.

Já na 2ª Fase, chamada de “Formação Profissional”, estão aquelas pessoas entre 26-35 anos de idade (38%). Nesta etapa, sejam enfermeiros, técnicos ou auxiliares, buscam se qualificar para os serviços, especializando-se por meio de uma Pós-Graduação (enfermeiros) ou uma Pós-formação (para os técnicos). Essa busca por especialização está diretamente associada à perspectiva de inserção no mercado de trabalho em funções de maior complexidade e destreza cognitiva.

Ele se encaminha para a academia, procurando um curso no âmbito do lato sensu ou stricto sensu, seja um curso de atualização, curso de especialização, Programa de Residência em Enfermagem ou afins, Mestrado Profissional, Mestrado Acadêmico ou mesmo o Doutorado. Cada vez mais, esta formação, especialmente no stricto sensu, se dá mais precocemente, no início da vida profissional, habilitando-o a seguir carreira seja nos serviços, na academia ou na gestão do sistema de saúde. Ele busca se qualificar nas áreas de seu interesse mas sempre com o olhar para o futuro do mercado de trabalho. Também começa a se estabelecer ocupando postos de trabalho disponíveis, sejam nos grandes centros ou nos interiores do país. Pode-se dizer que a é a fase da busca da identidade profissional, da perda da ilusão de uma vida promissora idealmente, como também reflete o período da preparação (racional) para as escolhas profissionais, definitivas.

Na 3ª Fase, denominada de “Maturidade profissional”, encontram-se os indivíduos com idade entre 36-50 anos (40,1%). São profissionais em pleno desenvolvimento de suas capacidades cognitivas, técnicas e práticas de enfermagem. Já preparados e devidamente qualificados, estes se inserem, em definitivo, no mercado de trabalho. Neste momento, as escolhas são guiadas pela lógica racional e feitas com olhar atento as oportunidades de trabalho. Ele assume a plenitude de sua vida profissional e passa a ter domínio de suas habilidades e destrezas cognitivas. Já, quase sempre, com o diploma de especialista nas mãos e com a certeza quanto a área em que vai se firmar profissionalmente, ele busca se garantir nas melhores oportunidades de trabalho. É possível, no caso dos técnicos, a realização, em paralelo, de curso superior, na perspectiva de mudança de área ou, até mesmo, ascensão na carreira de enfermagem. Neste momento, não há mais espaço para ilusões e incertezas.

O cotidiano do trabalho assume proeminência e advoga em prol de escolhas racionais mediadas pelas oportunidades. É a fase das certezas, da afirmação da identidade profissional, da construção do futuro mediante escolhas planejadas e tecnicamente testadas. Inicia-se aqui um longo ciclo de produtividade, criatividade, da busca por prosperidade econômica mediante o trabalho. É também o auge do reconhecimento profissional.

A 4ª Fase, definida como “Desaceleração profissional”, encontram-se aquelas pessoas com idade entre 51-60 anos (11,4%) que, já buscam, seletivamente, se manter nas atividades, trabalhos e empregos que lhes assegurem a aposentadoria. Já não se aventuram em trabalhos, empregos ou mesmo atividades novas ou guinadas bruscas em sua vida profissional. A mudança, caso ocorra, será movida por escolhas e por interesses e desejos pessoais de realização, comodidade e segurança pessoal. Por exemplo, a realização de um Pós-Doutorado, ou mesmo de uma Pós-Graduação “fora do tempo” ou então, no caso dos técnicos, a possibilidade de uma nova inserção profissional, muitas vezes, na própria área da saúde ou fora dela.

Na 5ª Fase, da “Aposentadoria”, estão as pessoas com idade acima de 61 anos (2,1%) que já se retiraram do mercado de trabalho, parcialmente ou totalmente, ou estão se preparando para saírem. É o momento do cessar gradual e definitivo da vida profissional, do mundo do trabalho. Surgem as oportunidades ou se busca realizar atividades “criativas”, funções, e tarefas que lhes conferem comodidade, prazer e reconhecimento pessoal. Nesta fase, as escolhas são movidas pela vontade e desejo de fazer o que lhes agradam e dão sentido.

Analisando a Figura que segue, nota-se que, ao fazer o mapa das fases da vida profissional da equipe de enfermagem, há um predomínio nas segunda e terceira fases, ou seja, a da formação profissional com 38% e da maturidade profissional com (40,1%), o que soma quase 80% do total. Aqueles da primeira fase representam menos de (7,6%) e os que estão na última, a da aposentadoria pouco mais de 2%.

Enferm. Foco 2015; 6 (1/4): 11-17

(MACHADO, FILHO, LACERDA, et al, 2015)

Sem acesso a várias das estatísticas a respeito da nossa situação atual, muitos poderiam afirmar que a enfermagem – diante de tamanha importância, abrangência e efetivo de profissionais – é a categoria mais valorizada na área da saúde. Mas a realidade, como bem sabemos, é diferente e desencorajadora.

Temos uma classe profissional onde um elevado percentual de pessoas (quase 11%) declara ter renda total mensal de até R$ 1.000, com pouco mais de 3% de profissionais que não recebem mais que 1 salário mínimo. Fazemos parte de uma área da saúde onde é observada situação de desemprego aberto, com pouco mais de 10% dos profissionais relatando situações de desemprego nos últimos 12 meses. Outra questão é a quantidade de horas semanais trabalhadas. Do total de profissionais, observa-se que 34,7% tem jornada de 31 – 40 horas. No entanto, 1⁄4 do contingente da enfermagem brasileira trabalha entre 41 – 60 horas. Se somado 61 – 80 horas e mais de 80 horas, este percentual atinge 13,9%. Do total do contingente, registra-se 71,9% que tem jornadas de até 60 horas semanais e acima de 41 horas, 38,6% (2).

Somos uma classe de trabalhadores na qual o desgaste profissional é registrado em cerca de 66% dos seus integrantes. Mais da metade desses profissionais (52,7%, 50,1% e 61,1% nos serviços públicos, privados e filantrópicos, respectivamente) não possui local apropriado para descanso. Aproximadamente 74% revelam que, entre os pares, nem sempre há um clima de respeito em relação às condutas técnicas adotadas pela equipe. Pouco mais de 18% dos profissionais de enfermagem referem já haver sofrido discriminação no local de trabalho (3).

Ainda mais importante, inquietante e desoladora é a violência destinada aos profissionais da nossa classe. As situações de violência são comuns e não recebem atenção dos órgãos responsáveis, bem como as condições de trabalho se mostram precárias. Segundo pesquisa realizada (4), o trabalho precário está associado à situação de déficit ou ausência de direitos de proteção social, à instabilidade de vínculo do ponto de vista dos trabalhadores e à condição de trabalho que cria vulnerabilidade social (5). Cerca de 62% da equipe de enfermagem no Brasil expressa insegurança no local de trabalho, o que nos revela um ambiente marcado pela falta de segurança e desproteção de mais de 1 milhão desses trabalhadores.

Quase 30% da nossa classe já sofreu violência no ambiente de trabalho. Contudo, mesmo tendo a maioria afirmado não ter vivenciado tal situação, torna-se importante não só registrar, como analisar mais profundamente a situação. São mais de 540.000 seres humanos vítimas de violência enquanto cuidam de outros seres humanos. Dentre aqueles que declaram ter passado por situações de violência, deve-se observar que há relatos de maior índice de violência no contingente de enfermeiros (33,6%), do que no de auxiliares e técnicos (27,3%) (3).

Mais especificamente, a pesquisa buscou captar a tipologia da violência que está presente no cotidiano do trabalho: a psicológica, a institucional, a física e a sexual. Na equipe, os dados registram com maior frequência a violência psicológica (66,5%); seguida pela institucional com 17,1%; a física com 15,6%, sendo a sexual a menos apontada, com apenas 0,9%. Entre os enfermeiros, a maior frequência é a violência psicológica (65,2%); seguidapelainstitucional (23,5%); a física(10,6%), sendo a sexual a que menos aparece, com apenas 0,6%. Já no meio dos auxiliares e técnicos de enfermagem, a psicológica (67%) é a mais destacada; seguida pela física (17,5%); a institucional (14,6%), sendo a sexual a menos apontada, com 1% (3).

Há, na população em geral, um sentimento de que a enfermagem é a criada que eles pagam (e esfregam em nossas caras por meio dos fatídicos “eu pago meus impostos. Eu pago o seu salário!”) para executar os serviços que nenhum outro executaria. Há, na população em geral, a percepção de que a enfermagem não tem a quem recorrer e, portanto, se torna alvo fácil. Entre todas as agressões registradas em serviços de segurança pública, apenas 4% dos agressores são penalizados. Isso é lamentável. Desolador.

Nos Estados Unidos, por exemplo, a enfermagem é a categoria profissional mais respeitada pela população em geral. Lá, a enfermagem trabalha de forma conjunta, unida e forte. Faz valer os seus direitos, se faz notar politicamente.

A situação de invisibilidade social que encaramos na enfermagem brasileira deve ser mudada. E o único meio de alcançarmos uma visibilidade aceitável é nos unirmos contra todas as estatísticas que já citei. Trabalharmos unidos, mostrando à população o valor que temos.

Faço parte, orgulhosamente, da enfermagem brasileira e me solidarizo com ela. Somos todos profissionais de enfermagem, dignos de respeito e reconhecimento. Somos a frente de trabalho na área da saúde que cuida, que deixa o seu sofrimento de lado para amenizar o sofrimento de quem precisa de nós.

A equipe profissional que produz assistência à saúde é formada por médicos, enfermeiros, odontólogos, farmacêuticos, biólogos, psicólogos, nutricionistas, fisioterapeutas, terapeutas ocupacionais, além das recentes inserções de engenheiros biomédicos, economistas, sociólogos, entre outras que deverão incorporar-se à equipe em breve (6). Todas essas profissões, com suas especificidades e atribuições, tratam (ou ajudam a tratar) o paciente enfermo. A enfermagem é a única que cura o ser humano, de forma holística e segura.

Torçamos, e ajamos, para que essa realidade mude nos próximos anos. Tudo depende de nós!

 


REFERÊNCIAS

  1. Machado MH, Filho WA, Lacerda WF, Oliveira E, Lemos W, et al. Características gerais da enfermagem: o perfil sócio demográfico. Enferm. Foco 2015; 6 (1/4): 11-17.
  2. ________________. Mercado de trabalho da enfermagem: aspectos gerais. Enferm. Foco 2015; 6 (1/4): 11-17.
  3. ________________. Condições de trabalho da enfermagem. Enferm. Foco 2015; 6 (1/4): 79-90.

  4. COFEN. O exercício da enfermagem brasileira nas instituições de saúde do Brasil: 1982/1883. Rio de Janeiro: COFEN/ABEn; [s.d.].
  5. Vieira ALS. Os enfermeiros no Mercosul: recursos humanos, regulação e formação pro ssional comparada. Relatório nal [cd]. Rio de Janeiro: Rede Observatório de Recursos Humanos em Saúde; 2006.

  6. Nogueira RP, Baraldi S, Rodrigues VA. Limites críticos das noções de precariedade e desprecarização do trabalho na administração pública. In: Observatório de recursos humanos no Brasil: estudos e análise. Brasília: Ministério da Saúde; 2004.

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