Imagem: Newsweek.com

Hipotermia após parada cardíaca

Resfriamento do corpo pode reduzir sequelas neurológicas e contribuir para a recuperação do paciente

Para os leigos, parece ficção científica. Para os médicos, no entanto, a hipotermia já é uma técnica antiga conhecida e utilizada com frequência há mais de 10 anos em unidades de terapia intensiva e prontos-socorros. Longe de ter o aparato tecnológico que mexe com a imaginação da população, o procedimento consiste apenas em reduzir a temperatura corporal de quem sofre uma parada cardíaca e não recobra a consciência, a fim de reduzir possíveis sequelas neurológicas.

Quando o coração para, consequentemente a circulação também para. O cérebro, órgão do corpo que mais consome oxigênio, é um dos primeiros a sofrer com a falta de nutrientes e da oxigenação necessária. Alguns segundos depois da parada cardíaca, ele “desliga” e a pessoa perde a consciência.

Nesse momento, uma série de reações acontece no tecido cerebral: as células começam a perder nutrientes, incham, ficam comprometidas e morrem. Quanto maior o tempo sem batimento cardíaco, maiores os danos. E mesmo depois de o coração voltar a bater as lesões neurológicas continuam evoluindo. “A situação é dinâmica: não é porque o coração voltou a funcionar que o cérebro está protegido. Por isso, precisamos evitar que o quadro piore, que novas lesões ou inflamações aconteçam”, explica Dr. Antônio Capone Neto, médico intensivista e coordenador médico do Centro de Tratamento Intensivo do Einstein.

Esse é justamente o objetivo da hipotermia. O procedimento diminui o metabolismo cerebral, o consumo de oxigênio e a resposta inflamatória, reduzindo, assim, a morte celular. “Ao evitar que o dano se estenda, é possível preservar a saúde do paciente e melhorar o prognóstico”, afirma o Dr. Flavio Rocha Brito Marques, cardiologista e coordenador médico Ambulatorial e de Urgência do Hospital. Para isso, no entanto, é preciso agilidade: a hipotermia deve ser realizada o mais rapidamente possível após o evento cardíaco. “Fazendo um paralelo para simplificar: se você bate o braço, deve logo colocar gelo para não inflamar tanto. Se colocar gelo no dia seguinte, o resultado já não vai ser tão bom ”, exemplifica o Dr. Antônio. A lógica é a mesma com o cérebro.

Baixando a temperatura

A técnica pode ser aplicada assim que o coração voltar a bater. Como reduzir a temperatura apenas no cérebro é muito difícil, todo o corpo precisa ser resfriado. O procedimento pode ser feito de duas formas: invasiva e não-invasiva. A primeira é realizada por meio da aplicação de soro gelado ou por meio de diálise gelada. A segunda pode ser feita com compressas frias sobre regiões de grande circulação como a virilha ou axilas (embora essa técnica não seja considerada tão eficiente pelos especialistas, pois o controle da temperatura não é tão bom) e a colocação de mantas térmicas que conservam a temperatura baixa.

A meta é resfriar o paciente no menor tempo possível e isso depende do método utilizado. “Com o soro gelado a 4⁰C consigo atingir a temperatura ideal em 30 minutos e posso utilizar as mantas para mantê-la, já que é importante não ter oscilação de temperatura”, explica o Dr. Flávio.

A temperatura normal de um ser humano está entre 36⁰C e 37⁰C. A hipotermia reduz esse número para algo em torno de 32⁰C a 34⁰C. Esse é o nível mais adequado, de acordo com a literatura médica existente hoje. Alguns trabalhos científicos estão testando outros níveis, mas ainda sem evidência comprovada.

“Diminuindo a temperatura, tudo acontece lentamente no corpo. Nesse período conseguimos frear o processo de inflamação e morte das células. Assim, o grande benefício é diminuir os danos neurológicos. Há uma grande melhora no desfecho e na sobrevida do paciente”, reforça o Dr. Antônio. “O custo social de um dano neurológico é grande e reduzir isso é um impacto muito grande para o indivíduo e para a sociedade”, completa o Dr. Flávio.

O procedimento é mantido por 24 horas. Nesse tempo, a pessoa fica mais suscetível a desenvolver infecções e a apresentar pressão mais baixa. Após esse período, é necessário reaquecer o corpo de forma lenta e gradual. É um momento crítico, já que há risco de comprometer todos os benefícios alcançados se o paciente for reaquecido rapidamente demais. O processo de reaquecimento pode levar até 24 horas adicionais.

Mesmo sendo tão promissora, a hipotermia é contraindicada em alguns casos. Se após a parada cardiorrespiratória houver recuperação da consciência, não é possível realizar a hipotermia. Os demais casos são aqueles em que o paciente está em estado de choque, com circulação comprometida, sangramento ativo (a baixa temperatura piora a coagulação) ou com algum quadro infeccioso (a resposta do sistema de defesa do organismo é afetada).

Área de estudo

O tema é amplamente discutido em congressos médicos e são várias as pesquisas relacionando a hipotermia com a parada cardiorrespiratória. Algumas delas tentam avaliar se o procedimento pode trazer benefícios a outras áreas do corpo além do cérebro. Ou, ainda, se há redução na taxa de mortalidade com a utilização da técnica. Outros estudos testam diferentes temperaturas e procuram pelo valor em que o corpo como um todo possa ter uma resposta melhor. Por enquanto, a documentação científica só existe para casos pós-parada cardíaca, mas já existem estudos tentando avaliar a aplicação do método para outras ocorrências.

No Brasil ainda não são muitos os serviços que implantaram esse tipo de atendimento nos prontos-socorros ou nas UTIs. O desafio ainda é disseminar conhecimento e treinar equipes especializadas para que mais pacientes possam ter acesso a essa técnica.

via Hospital Israelita Albert Einstein

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